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Estudo de caso · Observatório IBI

A estiagem de 2024 na bacia do Amazonas

Documentação analítica de um episódio de divergência acentuada entre as estações de Manaus e Itacoatiara.

Autoria: Observatório de Infraestrutura de Transporte — IBI · Publicado em: Maio de 2026

A estiagem de 2024 foi a mais severa já registrada em séries históricas modernas da bacia amazônica. Entre outubro e novembro daquele ano, as estações de Manaus e Itacoatiara — separadas por 200 km no eixo Rio Negro/Amazonas — registraram suas mínimas em datas distintas, com 22 dias de defasagem. Este estudo documenta o episódio com base nas séries oficiais da ANA e oferece subsídios técnicos para o planejamento operacional em ciclos hidrológicos semelhantes.

Mínima em Manaus

12,11 m em 9/out/2024

Mínima em Itacoatiara

−0,17 m em 31/out/2024

Defasagem temporal

22 dias

Severidade

Mínima histórica em ambas as estações

Os valores absolutos referem-se aos zeros das réguas locais e não são comparáveis diretamente entre estações. A análise foca na defasagem temporal entre os pontos de inflexão e na posição relativa de cada estação dentro de sua própria série histórica.

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Contexto climatológico

O ciclo de 2023–2024 foi marcado por El Niño de intensidade forte e por anomalias térmicas no Atlântico Norte tropical.

O ciclo hidrológico de 2023–2024 ocorreu sob influência simultânea de dois fenômenos climáticos: El Niño no Pacífico equatorial, classificado como de intensidade forte, e aquecimento anômalo do Atlântico Norte tropical. A combinação reduziu de forma significativa a precipitação sobre a bacia amazônica, especialmente no setor norte e central.

Como consequência, a recarga dos rios formadores do Negro e do Solimões durante o período de chuvas de 2023–2024 ficou abaixo da média histórica. A estiagem subsequente, observada entre julho e novembro de 2024, registrou mínimas inéditas em diversas estações da bacia.

Em Manaus, a cota mínima de 12,11 m superou — para baixo — o recorde anterior, de 13,63 m, registrado em 2010. Em Itacoatiara, a mínima também foi a mais baixa da série histórica.

Fontes: SGB/CPRM, INPE, NOAA Climate Prediction Center, Boletim Hidrológico da Bacia Amazônica (ANA, 2024).

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A defasagem dos 22 dias

Cronologia comparada das duas estações entre setembro e novembro de 2024.

O gráfico abaixo sobrepõe as cotas diárias de Manaus e Itacoatiara entre 1º de setembro e 30 de novembro de 2024. A linha de Manaus atinge seu ponto mínimo em 9 de outubro e inicia recuperação. A linha de Itacoatiara segue em recessão por mais 22 dias, atingindo a mínima apenas em 31 de outubro.

O Lag de 22 Dias — Manaus e Itacoatiara na Estiagem de 2024

Manaus atingiu a mínima em 9/out/2024. Itacoatiara continuou em recessão por mais 22 dias, atingindo a mínima histórica em 31/out/2024.

Manaus abaixo de 17,7 m

10/set/2024

Início das baixas águas

Mínima Manaus

09/out/2024

12,11 m

Lag entre mínimas

22 dias

Defasagem entre estações

Mínima absoluta Itacoatiara

31/out/2024

−0,17 m (recorde)

O que os dados mostram:

Manaus ficou 109 dias abaixo de 17,7 m (10/set–28/dez/2024). Durante 22 desses dias, Manaus já subia enquanto Itacoatiara ainda registrava seus menores níveis históricos — evidenciando que as duas estações operam em momentos distintos do ciclo hidrológico durante estiagens severas.

* Série Itacoatiara set-dez/2024 interpolada a partir de pontos-âncora (SGB/Portal Amazônia). Série Manaus: ANA/SACE (Régua_MAO.txt). Mínimas Itacoatiara: Portal Amazônia/ANA.

9 de outubro de 2024

Manaus

Mínima histórica registrada — 12,11 m

A partir deste ponto, Manaus inicia ascensão.

10 a 30 de outubro de 2024

Período de divergência

Manaus em ascensão, Itacoatiara em recessão

Durante 22 dias, as duas estações operam em fases opostas do ciclo.

31 de outubro de 2024

Itacoatiara

Mínima histórica registrada — −0,17 m

A partir deste ponto, Itacoatiara inicia ascensão.

Esse intervalo é uma característica observada em anos de estiagem severa: estações a montante recuperam-se antes que a onda de recessão se propague rio abaixo. Em condições hidrológicas normais, essa defasagem é menor e menos perceptível operacionalmente.

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2024 no contexto da série histórica

Como o episódio de 2024 se posiciona em relação a estiagens anteriores documentadas na bacia.

A série histórica das estações de Manaus e Itacoatiara permite contextualizar 2024 em relação a outros eventos extremos. O quadro abaixo lista os anos de mínimas mais severas registradas na estação de Manaus desde 1903 (início da série).

Mínimas históricas em Manaus — 5 menores cotas registradas
AnoCota mínima (m)Data da mínimaContexto climático
202412,119 de outubroEl Niño forte + Atlântico Norte aquecido
202312,7026 de outubroEl Niño em desenvolvimento
201013,6324 de outubroEl Niño moderado
196313,6413 de outubroSem evento significativo
200514,7526 de outubroAtlântico Norte aquecido

Os anos de 2024 e 2023 representam, respectivamente, a primeira e a segunda menor cota da série de mais de 120 anos.

A frequência de eventos extremos nos últimos vinte anos — com três das cinco menores cotas históricas registradas após 2005 — é compatível com projeções de maior variabilidade hidrológica na bacia em cenários de mudança climática.

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Implicações para o planejamento operacional

Aprendizados extraídos do episódio que podem informar a tomada de decisão em ciclos futuros.

Defasagem temporal entre estações

Em ciclos de estiagem severa, a mínima em estações a jusante pode ocorrer com defasagem significativa em relação a estações a montante. O monitoramento conjunto de Manaus e Itacoatiara oferece leitura mais completa do trecho.

Janelas operacionais

Durante a defasagem, embarcações com calado próximo ao limite operacional podem encontrar condições distintas em diferentes pontos do trecho. O planejamento de viagem se beneficia da consulta integrada às duas estações.

Previsibilidade

Eventos como El Niño são previstos com meses de antecedência por modelos climáticos consolidados. Essa antecedência permite preparar planos de contingência operacional para ciclos de estiagem potencialmente severos.

Limites do monitoramento pontual

A análise integrada de múltiplas estações fornece informação complementar à leitura individual. Cada estação, isoladamente, reflete apenas as condições locais do trecho monitorado.

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Metodologia e fontes

Critérios de seleção, tratamento dos dados e referências.

Fontes de dados

Agência Nacional de Águas (ANA)

Séries históricas de cota das estações de Manaus (código 14990000) e Itacoatiara (código 16030000), via plataforma HidroWeb e API SOAP de telemetria.

SGB/CPRM

Boletins de Monitoramento Hidrológico da Bacia Amazônica e relatórios de previsão de cheia e estiagem.

INPE e NOAA CPC

Dados de anomalia de temperatura da superfície do mar e índices de El Niño/La Niña (ONI).

Tratamento dos dados

  • ·Séries históricas consolidadas em base diária, com preenchimento de falhas pontuais por interpolação linear quando o intervalo era inferior a 3 dias.
  • ·Identificação dos pontos de inflexão (mínimas e máximas) por detecção de mudança de sinal na primeira derivada da série suavizada por média móvel de 5 dias.
  • ·Cálculo da posição relativa P10–P90 com base em janelas móveis de 11 dias centradas na data corrente, ao longo da série 1995–2023.

Limitações

  • ·As cotas são medidas em relação ao zero da régua local, não a um datum absoluto comum. Valores absolutos não são comparáveis diretamente entre estações.
  • ·A telemetria pode apresentar falhas pontuais, especialmente em períodos de manutenção de equipamentos. Essas falhas são sinalizadas nas séries originais da ANA.
  • ·As correlações com fenômenos climáticos (El Niño, Atlântico Norte) são associativas e baseadas em literatura consolidada. Atribuição causal rigorosa exige modelagem específica.

Como citar este estudo

Observatório de Infraestrutura de Transporte do IBI. A estiagem de 2024 na bacia do Amazonas: estudo de caso. Brasília: IBI, 2026. Disponível em: [URL].

Situação atual

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O Monitor Hidrológico exibe as leituras atuais das estações analisadas neste estudo, comparadas à faixa histórica e aos ciclos recentes.

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